10 dezembro 2016

Era

Era o amor tão sagrado, tão puro e honesto.
Irei profaná-lo em todos os símbolos,
a cada gesto.

Era o amor antes de tudo eloquente,
adestrava a linguagem com precisão metodológica
na seleção e concatenamento de conceitos exatos
em argumentação irrefutável

O conjuro, pois, em grunhidos,
palavras ininteligíveis e vis
que ouço e pronuncio em uma língua ancestral
que lambe, morde, chupa e ri

Era o amor tão simétrico,
apreciava refinadas harmonias e melodias suaves
elegantemente arranjadas em escala tonal

a desafiná-lo entoo
minha voz dissonante e rouca
enquanto, vulgarmente clichê, desabotoo a roupa
perante olhos grandes e ávidos

Era o amor circunspecto.
Implacável
no exercício incansável de legislar:
separava o joio do trigo,
a verdade do equívoco
a saúde do vício.
Era o amor impreterivelmente ético.

E asséptico:
as mãos meticulosamente limpas antes das refeições
realizadas sempre nas horas pares.

Era o amor quase casto.

a depravá-lo me rasgo
no jogo insensato da fusão da matéria
promovo o contágio
devoro perversa
a embriaguez e o crime
submersa em suor e saliva
as mãos manchadas de sangue
me revolvo na lama e no húmus
num contato impuro e anônimo.

Era o amor tão estéril.

13 agosto 2016

de quando ainda se costumava sonhar

Existe um sonho. Que não é exatamente meu, nem é exatamente original. Mas pouco importa,
a meu ver, a autoria ou a originalidade dos sonhos. Nem importa exatamente a sua realização,
pois se realizado, o sonho, enquanto sonho, morre.
Para que nasçam realidades.

Importam então, as marcas deixadas pelos sonhos na vida durante os esforços
humanos na direção de construí-los. O sonho é uma semente,
que espera pelo solo fértil onde possa florescer, por isso não pertence a alguém.
A semente não pertence ao pedaço de solo onde acaba por germinar, a terra
apenas permite à semente que ela se realize.
Esse sonho, enquanto semente,
ainda não conhece a forma pela qual irá emergir na realidade:
ele a procura.

Ao mesmo tempo em que busca as condições mínimas necessárias para poder germinar.
Ele já esperou demais para acontecer.
Ele sabe que, mesmo que consiga, ele será ainda insuficiente
para realizar os seus propósitos.
Sim, o sonho também possui seus próprios sonhos,
seus futuros frutos, portadores de novas sementes-sonhos.
Assim como também ele é semente oriunda de sonhos mais antigos que conseguiram de alguma forma existir no mundo.

E nós, humanos, formamos a rede capaz de transportar as sementes por espaços e tempos e criar as condições propícias para elas.
Não somos os donos dos sonhos,
não somos geradores das possibilidades de existência.
Mas somos o que as pode permitir, somos o seu meio.

Este ao qual me refiro, poderia se dizer que é o sonho de muitos, quase o sonho de todos, em algum nível:

a ideia de uma realidade onde se pudesse viver plenamente a vida, e nada mais.

Qualquer um que queira vê que a realidade tal qual a conhecemos não nos oferece as condições propícias para sermos livres ou plenos.
Qualquer um que queira vê que a realidade, tal qual o conhecemos, nos rouba o tempo e os esforços, nos desgasta, nos enfraquece.

Mas se nós, humanos, somos o meio para as possibilidades de existência se realizarem, então é que a realidade tal qual a conhecemos se fez das possibilidades de existência
que se realizaram efetivamente em nós.
É a realidade que habita o humano e não o contrário.
Porque isso de realidade e de vida e de mundo existe apenas nos sentidos que atribuímos a tais nomes e às coisas às quais eles se referem. Sendo assim, seremos nós o meio para a realização de nossas próprias possibilidades de existência.

Então que aquele sonho encontra um possível terreno para pousar: aquilo por nós chamado Educação. Parece um terreno bom pois, pelo que se sabe, trata-se dos processos de ensinar e aprender, ou seja, processos de troca, onde acontece a “formação” do humano. Ali, onde o humano apreende os elementos pelos quais se constituirá, parece o espaço adequado para torná-lo condição de realização das potências de si mesmo. Isso se as ideias de Educação e aprendizagem forem concebidas como espaços para criação e construção de conhecimento, em vez de apenas como ferramentas de ajuste e adaptação. Mas esse sonho é suficientemente corajoso para acreditar que assim possa ser...


Uma vez encontrado o terreno, esse sonho ainda não conhece, embora possa intuir,
sua futura forma. Ele continua a buscá-la.
Pensar educação remete, talvez, a pensar “escola”. Então talvez ele nascesse sob a forma de algo como “uma escola que tornasse desnecessária qualquer escola”.
Porque esse sonho não gosta de escolas.
Tais quais as conhecemos.

Mas é que a partir daqui o sonho necessita de sua condição humana de acontecimento. Esse processo acontece agora, exatamente no instante em que eu (seja isso o que for), decidido escrever um texto, ainda bastante vago e talvez excessivamente metafórico, para começar a dar algum espaço no mundo para esse sonho. E o processo continua, num próximo agora, quando algum outro eu (você, no caso) lê o texto e sente algo.

Se houver ressonância, um próximo passo virá.

27 abril 2016

Cura e rito 1



Performance realizada na Nuvem Estação Rural durante a Residência de Verão 2016. Sobre a função mágica e ritual do gesto e da palavra em mim - herdeira de uma cultura eurocêntrica - a partir do meu estar diante da e ser atravessada pela cosmovisão Kaiowá por dois anos.

19 abril 2016

Tekoha

Dos infinitos aprendizados e transformações que experimentei junto ao povo indígena, recentemente compreendi profundamente, num insight, algo que não sei explicar: as pessoas que compõem a sociedade brasileira desconhecem, absolutamente, o sentido de território. Ou melhor, jamais puderam experimentar o sentido de tekohá, uma palavra guarani que define melhor o que quero dizer. Em impossível tradução, tekohá significa algo como “o lugar onde eu posso ser o que sou”, o lugar onde eu sou plenamente...
Eu não sei bem onde fica o recorte dessa minha percepção: se na sociedade ocidental como um todo, se no Brasil, se nas populações urbanas, se na universidade, etc. Sei que vai além de mim e que os que de alguma maneira me são semelhantes desconhecem o significado de pertencer a um lugar, tão vital para os índios. E quando então discutimos a importância da reconquista do território para os povos indígenas (a favor ou contra eles) estamos falando em demarcação de terra, em traçar limites geográficos, pensamos em mapas nos quais desenhamos. Achamos que devemos devolver a terra aos índios, porque terra era "deles" antes de ser "nossa". É quase impossível fugirmos à noção de terra como mercadoria ou como uma área vazia onde se pode colocar qualquer coisa em cima: de asfalto a plantações, indiferentemente, o “território” demarcado é um espaço em branco a ser preenchido. E nada sabemos do contexto do território, dos relevos, cores e histórias específicos que, na verdade, desenham a mim. Sem os quais eu me transformo em outra coisa: um não-eu desterritorializado. Não se trata de uma individualidade que eu possa carregar para lá e para cá a meu bel prazer: eu pertenço ao tekohá, e apenas nele eu posso existir de fato.
Os Guarani e Kaiowá clamam e choram pela sua terra ancestral, morrem na luta pela reconquista do lugar onde seus antepassados foram enterrados e, quando conseguem a demarcação, passam a viver desconfigurados sobre uma terra desconfigurada. E nós, os não-índios ao redor, continuamos a não entender e a não saber ajudar, pois jamais pertencemos a um território e não choramos por terra alguma. Nós nos adaptamos a ambientes diversos e também adaptamos o ambiente a nós.
Eu estou desterritorializada desde que nasci.

16 abril 2016

Atalho

Caminhei até aqui mas hesito diante da entrada. Uma caverna. Sei que será frio e úmido e estreito e solitário o caminho que me espera. Um absoluto e imponderável pavor me toma por completo. As mãos débeis e trêmulas. Lágrimas frias gotejam constantes. Sei que não existe outro caminho nem retorno. Sei que sobreviverei necessariamente. Sei que não há nenhum perigo real ali dentro. Ainda assim esse medo.
Imagino segurar a mão inexistente desse alguém inexistente, que no entanto me acompanha. Imagino esse olhar inexistente no horizonte inexistente e olho fixo no fundo de seus olhos. Apenas assim, dou o passo.
E dentro...
Me torno imediatamente cega e surda. Tamanhos são a escuridão o silêncio que o próprio ar me parece escasso. Cada batida do coração acelerado é um golpe violento no peito. Dói uma dor inexistente.
Concentro-me no exercício de encher e esvaziar os pulmões. Mais um passo. Depois outro. E outro. Aos poucos o transferir o peso de um pé ao outro vai se tornando algo mais fácil, mais fluido. Nasce um ritmo. Que harmoniza com as batidas do coração, o pulsar das veias, o tremer das mãos . Respirar é cada vez mais possível, o ar penetra mais suave, pulmões expandem e contraem. Os olhos já se acostumaram a não ver e os ouvidos a não ouvir. Os pés, no entanto, caminham agora certeiros. A tensão do medo vai cedendo a uma certa excitação... inexplicável prazer. Cada milímetro do corpo percebe o que se aproxima e se delicia. Tudo vibra, tudo anuncia. Me aproximo da membrana, da borda. De encontro àqueles olhos projetados no horizonte que, agora sei, são meus. Atravesso.
Daquilo que gostaria de chamar "a verdade", apenas um vislumbre. Um átimo de onisciência. A suspensão do tempo, um instante microeterno, apneia entre o inflar o esvaziar dos pulmões.
E de repente o regresso. Tão veloz e atribulado como o susto de abrir os olhos, como se tudo fora um sonho.

27 março 2016

Mulher solar

nasci à luz da sua antítese

poluição da sua crença
ilegítima filha da decadência
feita toda de matéria-ausência

sou a sombra
o que te resta

aresta
que te deflora

chorume de lágrimas
que você não chora

o espelho quebrado
que te apavora

pelo avesso te atravesso
um bolor por sobre a pele
uma ferrugem entre as unhas
arranhões na ecrã dos olhos
infiltrando suas fendas

me alastro
nos dissolvo
te fecundo

02 março 2016

Alquimia

A dose exata do veneno
destilada na disciplina do silêncio,
o grau perfeito
extraído da lentidão do tempo,
fere e cura simultaneamente,
dano necessário ao movimento.
No ponto equidistante entre a moral e o crime,
o risco esgarçado ao seu extremo.

Observar o comportamento dos reagentes:
fim do experimento.